"Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença".
(Vista cansada)
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Caio Fernando - Trecho
De repente estou só. Dentro do parque, dentro do bairro, dentro da cidade, dentro do estado, dentro do país, dentro do continente, dentro do hemisfério, do planeta, do sistema solar, da galáxia - dentro do universo, eu estou só. De repente. Com a mesma intensidade estou em mim. Dentro de mim e ao mesmo tempo de outras coisas, numa sequência infinita que poderia me fazer sentir grão de areia. Mas estar dentro de mim é muito vasto [...].
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domingo, 20 de dezembro de 2009
Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?
O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala
Não me compreendo nem no que, compreeendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.
Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha
Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?
Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida..."
(Fernando Pessoa)
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Seu Próprio Nome

Para Fabiane
Já escureceu. Na minha cabeça há vários dias isso não acontecia. Até escrevi “Será evidência de minha fuga” num caderno, vi essa frase num livro, nem lembro o nome e muito menos quem escreveu. Já tive um amigo que tinha um caderno de notas, ele anotava nomes comuns de outros países, principalmente italianos como Bonanno, Provenzano, Gordi, Riina, Denaro, Accardo. Eu mesma fui de poesia, quando pequena, mas um acidente com minha perna não permitiu que continuasse com as rimas, quer dizer, os versos que escrevia não eram rimados (salvo uns), não tinha mão nem pena pra ser poetisa. Provavelmente essa frase que escrevi no caderno é uma espécie, alguma forma de volta ao tempo de pena e da mão. Duvido que seja isso, sou sempre exagerada e assustada. Nervosa. Especulativa. Sensacionalista, busco vez ou outra languidez: me deixo na cama, ao pé do sofá ou engulo o jardim que existia na minha primeira casa, quando ele e eu éramos cuidados por minha avó. Ela sim fazia poesia, com um ou dois livros editados e poemas em jornais, quando via esses jornais dizia que estava decepcionada, nunca explicava o porquê e se fechava na velhice. Ela não tinha homem há muito tempo, falava que não podia ser como eu seria, que eu poderia ir na rua catar homens à noite. Me imaginava saindo com um pote na mão e uma pinça na outra, catando e colecionando homens. Ficavam todos juntos mas separados por porção, dos morenos, branquelos e em especial os feios, sempre mais individualizados, mexendo os ombros, contrariados com alguma coisa. Esse calor. Meus sapatos ainda me cabem bem. Uma lua crescente um pouco encoberta. Na cidade vizinha houve pânico porque assaltaram uma loja famosa e cheia de gente. No sul o mar agitado, de ressaca. Me disseram que em Tibagi a chuva matou nove pessoas, muitos desabrigados. O tempo igual a clima mais espaço. Que besteira a minha, mas será que sou daquelas que quando não reza acha que não existe. Ainda lembro um poema da minha avó sobre o tempo. Seus originais e inéditos foram queimados por ordem dela quando estava morrendo. Um dia um colega de curso gritou comigo me achando boba, fazer esse tipo de coisa, eu não conhecia então autores que ficaram famosos por isso, porque seus parentes não queimaram o que escreveram. Fiquei sem entender.
Um dia meu pote de homens amanheceu aberto e chorei, eles fugiram, criança chora com facilidade. A vizinha riu dizendo que foi o saci. Como fiquei querendo o saci na minha coleção! Continuo querendo, tanto que quando ouço “saci!” interrogo a pessoa: quem quando onde quem que pessoa o que fez mas assim não é o saci o que é o Dionísio, não não o deus o mocinho doidinho da esquina é é manco o que ele não manca.
Já anoiteceu. Ando tão lenta e sem comer. Fico irritada mas: quando minha avó morreu voltei para os meus pais. No País de Gales uma criança morreu afogada, os pais desolados. Na Austrália ataque de tubarões. Os alemães choraram o suicídio de um jogador de futebol. Minha mãe ficou grávida de mim com doze anos. Meu pai tinha dezoito, fugiu, meu avô queria matá-lo. Casaram fugidos, talvez na Alemanha ou País de Gales ou Austrália. Fiz pequenininha um poema sobre esse erro, da gravidez de minha mãe, copiando um poema da avó, naquela idade eu só fazia poeminhas, era o que eu fazia. Me vangloriei um dia que era muito diferente da minha mãe e minha avó: Ninguém é igual a ninguém mas as semelhanças são tantas que quase num se diferencia, até assusta. Meu avô morreu quando eu era novinha, nem o vi, o que era bom segundo minha avó. Voltei pra minha mãe inchada de choro, ela também chorou e me abraçou, mas não caí na dela, sabia que não gostava de meninas. Estavam também dois irmãos. Um garoto que era meio-irmão, filho do meu pai quando este tinha quinze anos. E um garotinho filho dos meus pais. Meu pai só chegou no final da tarde e olhou pra mim.
Andava diferente com nova altura pela rua nova, passava mal por me forçar a não gostar de todos eles. Me afastei até da minha coleção e olha que tinha tanto homem novo, claro que ninguém me forçaria a adicionar meus irmãos, aqueles porcarias, na coleção. Dou risada dessas coisas de criança. Nem parecia eu, aquela aqui de hoje, andando por ali, pela rua, que não sou essa, essa menininha olhando de rabo de olho — pote e pinça na mão — um homem no bar, de barba ruiva, espreitando a hora certa de agarrá-lo, compilá-lo, armazená-lo, sondá-lo e contradizer-me. Um metro e tantos, mãos grandes, sapatos marrons, barba ruiva, voz que me chega de longe, bonita. Fazia às vezes essas anotações, dos que valiam à pena. Se hoje visse esse homem, do jeito exato que era, como o descreveria como mulher adulta. Forte, de barba ruiva e mão grandes que o levantam, sem fôlego, saído de dentro de mim. Quepoucavergonha, diria alguém. Minha mãe não podia dizer e minha avó não falava essas coisas, me repreendia muito pouco aquela velha que eu gostava tanto. Um acidente na avenida principal e um incêndio mobilizaram todos os bombeiros hoje e não puderam atender uma queda de criança, um ataque cardíaco, um susto de quase envenenamento, uma overdose. De qualquer forma tenho esse caderno novo e vou fazendo anotações, tudo bobinho, poucas palavras e assuntos, evoluindo devagar.
Já caiu a noite. Como um tipo de acordo eu fazia e deixava a porta aberta e via depois se o que pedia tinha se cumprido, aí era minha vez de cumprir o acordo. Minha avó sobreviveu numa noite e resistiu até quase um ano. A minha parte no acordo era mudar meu nome e como ela ficou viva bem mais tempo achei justo mudar também o sobrenome. Luísa Luciana, meu novo nome. Devia ter escolhido um sobrenome com cara de sobrenome. Saí dizendo pra todo mundo, muitos acreditaram que minha avó mudou meu nome e ficaram uns com inveja, os zenóbios, apolônios, afrânios, ubirajaras de não terem avó por perto, eu falei que só avó é que o governo dava o direito de mudar nomes dos netos. Minha avó: matou um serelepe, um ratinho, e abriu a barriga dele, que tinha comido meu umbigo, me salvou várias vezes
Queria ter me visto abrindo a porta da minha casa, de quando fui morar sozinha. Não confunda morar com morrar. Nem adequado com oportuno. Nem meus nomes. Desculpa disse pro senhorio, tenho essa mania de assinar meu nome de brincadeira, o senhor que me desculpe. Saiu nervoso dizendo ter que fazer outra cópia mas mesmo assim ele entrou pra minha coleção e ficou no grupo de gente como Johann, Ludwig, Heitor e Getúlio porque era músico. Surto de gripe no nordeste e de malária no norte, no Acre as duas coisas. Numa cidade aí tem dengue e furacão, primeiro furacão, aí depois de uns dias muito mosquito de dengue feito praga, pessoas com perfume de inseticida e roupa de redinha.
Manual de Luísa Luciana: não seja ambíguo e tenha umbigo, peloamordedeus. Bolo de chocolate com chocolate sem coco e não esteja peloamordedeus na minha coleção, aí quer dizer que já o esqueci. Como eu era pilantra. Escandalosa, altiva. Misericordiosa, cobra, serpente, carrapato, pitéu, guloseima, iguaria, manjar e petisco, incomodada. Fiz muita coisa de pretexto pra minha coleção, sei que não fiz com esse intuito, 1- experimentei maconha, 2- cheirei cola, 3- fui embora. Fiz essas coisas que colegas faziam, estava na casa deles, ficou péssima essa última frase, se fosse anotá-la precisaria melhorar. Mas fiz pra minha coleção, 1- ir numa igreja detestável, 2- assisti futebol de botão, 3- menti sobre as duas primeiras, 4- a lista vai longe.
É verdade que no escuro ainda há alguma luz, vejo com meus próprios olhos, diante dessa porta. Estou atrasada vários dias. Desculpa, é meu medo de raios, alguém acreditava. Vontade de ir embora falando um monte de palavrão. A porta parece só encostada. Tenho andado a noite toda. Deixou a porta aberta por mim com coisas acontecendo por todo lugar. —Vejo que você está bem, ainda bem que veio, três dias era seu recorde, você me disse, comigo se superou. Vou ficar na cidade mais tempo, eu posso, viu? Você fica quieta me olhando, andou a noite toda, assim acho que gosta mesmo de mim. Não, nem seus pais seus irmãos. Estou ainda na cidade. Peixe voador desconhecido. Inéditas partituras de Mozart. Gravação perdida do nirvana encontrada. Recuperado quadro roubado de Portinari. Nova espécie de homem achada aqui.
FIM
Poemas de minha Avó, Ana Clara Sombra de Montanha:
Minhas cinzas
Deixem numa
forma que está
Debaixo da cama
No primeiro trovão
Volto como sempre fui
Continua sendo o meu lugar
aqui
# # #
Alivia o olho
seco e vermelho
este colírio
que eu uso
Todo dia
pra outras coisas
coisas da vida —
do meu coração.
# # #
Vi um homem
magrica
de costas largas
e porte de lorde
mas magricela
tão lindo o homem
da minha vida
mas não era homem
esse homem tão
magricela
era a Estela.
# # #
que erro
erro erro
que erro
erro
de não ler o
que me falam
de não fazer o
que me mostram
que erro o deles
# # #
Não saio com a
possibilidade de raios
já está dito o porquê
Se quer saber o falso motivo
Quando o sol nascer digo pra você
# # #
Anda
Só o tempo
é igual ou mais
o tempo
só a memória é
menos tempo e Deus
que não está, tosse
E seus hiatos chegam
ventos e chuvas pra cobrir
os ossos do tempo em quem sabe,
nós mesmos, desistir de fazer as contas
e cobrirmos, nós também, com guarda-chuvas
e agasalhos, nossos corpos.
# # #
Enxergo muito bem
como uma criança
De madrugada
brinco sem ciranda.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
A Descoberta do Mundo - trecho

Desculpe eu estar errando tanto na máquina. Primeiro é porque minha mão direita foi queimada. Segundo, não sei por quê.
Agora um pedido: não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.
Escrever é uma maldição.
Clarice Lispector,A Descoberta do Mundo
Agora um pedido: não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.
Escrever é uma maldição.
Clarice Lispector,A Descoberta do Mundo
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Florbela Espanca

Hoje, 8 de dezembro é a data de nascimento de Florbela Espanca e também aniversário de morte. (Essa é uma daquelas coisas da morte que me deixa intrigada e fascinada)
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!
“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!
“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…
UM PEQUENO JOGO por Mr. Mojo Risin
8 de dezembro é a data de nascimento de James Douglas Morrison, mais conhecido como Jim Morrison.
Antes eu tinha um pequeno jogo
Gostava de rastejar no meu cérebro
Penso que sabes qual o jogo que me refiro
Refiro-me a um jogo chamado Enlouquecer
Agora devias tentar este pequeno jogo
Apenas fecha os olhos e esquece o teu nome
esquece o mundo, esquece as pessoas
E nós ergueremos um campanário diferente.
Este pequeno jogo é divertido de fazer.
Apenas fecha os olhos, impossível perder
E eu estou aqui, eu vou também
Liberta controle, estamos a atravessar
tradução pega neste blog

Gostava de rastejar no meu cérebro
Penso que sabes qual o jogo que me refiro
Refiro-me a um jogo chamado Enlouquecer
Agora devias tentar este pequeno jogo
Apenas fecha os olhos e esquece o teu nome
esquece o mundo, esquece as pessoas
E nós ergueremos um campanário diferente.
Este pequeno jogo é divertido de fazer.
Apenas fecha os olhos, impossível perder
E eu estou aqui, eu vou também
Liberta controle, estamos a atravessar
tradução pega neste blog
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Trecho : A Descoberta do Mundo- Clarice Lispector

O hábito tem-lhe amortecido as quedas. Mas sentindo menos dor, perdeu a vantagem da dor como aviso e sintoma. Hoje em dia vive incomparavelmente mais sereno, porém em grande perigo de vida: pode estar a um passo de estar morrendo, a um passo de já ter morrido, e sem o benefício de seu próprio aviso prévio.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Interrogação De Nada
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa
sábado, 7 de novembro de 2009
O Abutre - Franz Kafka
Kafka (D), ñ sei quem está do lado dele...Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado
sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto,
esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um
senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu
podia suportar o abutre. — É que estou sem defesa – respondi. — Ele veio e
atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um
bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como
vê, estão quase despedaçados. — Mas deixar-se torturar dessa maneira! –
disse o senhor. — Basta um tiro e pronto! — Acha que sim? – disse eu. —
Quer o senhor disparar o tiro? — Certamente – disse o senhor. — É só ir a
casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora? — Não sei lhe dizer
– respondi. Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei: — De qualquer
modo, vá, peço-lhe. — Bem – disse o senhor. — Vou o mais depressa
possível. O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos
alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de
asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo,
enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti,
com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos
infinitos do meu sangue.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O ESPELHO MORTO - Maura Lopes Cançado
Ando deveras muito preocupada com o que se passa ao meu redor. Não que tema morrer; em vez disso, sinto medo de me ver eternizada em bloco de pedra, ou mesmo continuar como estou: esperando, esperando, apenas esperando salvar-me dos rostos quadrados, fugir e encontrar pessoas com as quais possa falar, sem que minhas palavras se percam no vácuo, inúteis. Porque vivo sozinha num mundo cada vez mais estranho, fantástico, monstruoso. Não que as coisas tenham se modificado tanto. Desde menina este encarceramento me sufoca, minha coragem foi sempre formada do desejo de evasão, o desespero de fuga deu-me forças até hoje. Ignoro mesmo se existe um lugar onde se movam pessoas e esta dúvida pode ser a causa da crescente inquietação que me domina, pois ameaça ruir minha única esperança. Não: tudo se agravou mesmo depois da morte do espelho.
Não costumo sair de casa. Os dias são distantes, depressa, e quase nunca há sol. Habito um apartamento de andar térreo, um pouco escuro, ainda durante o dia, luxuoso e antigo, onde moram três outras criaturas. Ignoro porque moramos juntas. Conheço-as há pouco tempo. São mais ou menos parecidas com as que tenho visto, apesar de sabê-las mais perigosas - decerto pela proximidade. (Na verdade, gostaria de me mudar. Conheço, porém, a inutilidade das mudanças.) Falam demais, andam constantemente armadas, usam com ferocidade os dentes. Estão sempre gordas de razão. Esqueci-me de dizer que são mulheres, estas tremendas criaturas. Apesar deste detalhes, uma delas deixou crescer vasto bigode, que a tornou um pouco mais simpática, ocultando-lhe as presas, fortes, ameaçadoras. Ao levantar-me de manhã, para ir à cozinha fazer meu café, encontro-a, articulando a possante mandíbula, no trabalho pertinaz da primeira refeição. Cumprimento-a delicadamente, esforçando-me em parecer afável. Tenho por resposta o rosnar ameaçador de como se protege a caça. Nem sempre consigo tomar até o fim o meu café. A criatura rosna impaciente, às vezes uiva, dançando pela cozinha, dando-me a impressão de grande exagero na sua manifestação, creio, de alegria.
Volto ao quarto e me deito sob os cobertores, enquanto outra se veste rápida, precisa, para chegar na hora exata à primeira aula do Curso de Geologia. (Ocupamos as duas o mesmo quarto.) Antes de sair, faz ginástica. Conseguiu desenvolver de tal modo os músculos das pernas que, por várias vezes, julguei entrar um edifício inteiro pelo quarto, em sua construção exótica: pilares gigantescos sustentando pequeno tronco, enquanto a cabeça rodava, bola, distante e pequena como a cabeça de um alfinete. Após a ginástica arruma, sempre rápida, precisa, a metade do aposento que lhe pertence, jogando, debaixo e mesmo sobre minha cama, grandes pedras, por ela colhidas diariamente nas praias. Pedras personalíssimas, quase vivas, que já me tomam a metade do leito. Encolho-me sob os cobertores, as pedras ocupando sempre mais espaço, atiradas pela intrépida criatura: mecânica-rápida-organizada. Gostaria de impedir que meu corpo se expusesse diariamente a estas pedradas. Não vejo solução, já que deitar-me sob os cobertores é a maior proteção por mim encontrada. Se abandonar o quarto, enfrentando olhares antropófagos nas ruas, corro o risco de, ao voltar, achar toda a cama tomada. E me sentiria impossível argumentar com as pedras, eu que sou destituída de qualquer senso de organização, mesmo iniciativa.
Não que me ache conformada. Tentei protestar uma vez mas a estudante continuou, so9lene, limpando os móveis. Depois, sem pressa, meteu-me uma grande pedra na boca, deixando tranqüila o quarto. Mais tarde, escutei-a relinchando na sala para as outras, que eu cacarejo demais e não sei marchar. Não a compreendi. Ainda assim fui possuída de grande raiva, tomei de uma arma esquecida por uma delas na cadeira, tentei atingi-la nas costas. Não consegui e terminei amarrada em trouxa dentro de meu próprio cobertor, onde passei dois dias. Ao libertar-me, grunhiu qualquer coisa, como sentir pena dos meus compromissos. Que ignoro quais sejam.
A terceira criatura é tirana - e muito boa pessoa. P:roibiu-me mover rápido a cabeça para os lados, temendo que o ar sinta-se demais agredido. Assim, ando pelo apartamento buscando ver sempre o que está à minha frente. Se me viro, faço-o com delicadeza. Esse cuidado me traz em constante tensão. É uma mulher pequena, rosto quadrado, cabelos duros de torre; vai sempre ao cabeleireiro. Costumo confundi-la com os objetos da casa.
Como já disse, evito sair à rua. Os edifícios me ameaçam, as mãos frias do vento me sufocam. Além dos olhares assassinos e da velocidade; pessoas enormes deslizam ruidosas pela cidade, conduzindo dentro delas outras pessoas. Posso vê-las quando arrisco meu olhar assombrado pelas janelas dos seus ventres.
Não prefiro coisa alguma. No entanto, saio às vezes, principalmente à noite. Vem buscar-me um ser que desconheço - embora venha buscar-me. Mostra-me os dentes, parece quase sempre irritado, joga-me porta a fora como se eu fosse um saco de abóboras. Costuma também relinchar, mostrando toda ferocidade nos dentes brancos. Nas ruas, busca proteger-me. Apesar de já me haver deixado sozinha, entregue às feras, habitantes de um certo subúrbio. Este ser talvez me quisesse dizer algo. Vejo-o luzente, vestido de alumínio, brilhando de noite à minha frente. Não seria sua maneira de rir? Indago-me se essa lata possui um coração.
Além dele, visita-me, não se para quê, outra criatura, um pedaço de tronco fino de árvore. Sentado à minha frente, discorre longamente sobre pulgas, galinhas e percevejos. Depois do quê, sai sem se despedir, encolhido em sua própria casca, morena, rugosa.
Ruas fervilham. Duelos se dão e todo instante. Mulheres se odeiam, beijando faces umas das outras. Muitas enxertam carne de vaca nas nádegas. Nem por isso perdem o jeito mau e duro de andar. Mostram as presas, se as olhamos dão constantes coices. Homens comem ávidos, o hálito podre provocando náusea. Mas é então que as fêmeas se agitam de todo, coiceam e relincham, movendo caudas e crinas. O asfalto queima.
Encolho-me no apartamento, sofrendo a presença das três horrendas criaturas. Gostaria de viver sozinha, ou pelo menos possuir um quarto, onde não me atormentassem tanto. Móveis animados passeiam o dia todo pelo aposento. Ouço ruídos esquisitos.
Tudo se tornou demais difícil depois do crime da futura geóloga, assassinando o espelho com uma pedrada. Considero esse crime a maior desgraça em minha vida, inútil, calada, vazia. Foi o espelho a única criatura humana que conheci. Desde a infância habituara-me a ele e não havia como temê-lo. Vê-lo diariamente, minha grande aventura. Contemplava-lhe a figura trêmula, hesitante, de olhos escuros, amáveis. O espelho possuía de medo o rosto branco. Tinha de medo o rosto. Aquele belo rosto quase sempre triste levou-me a admitir, em algum lugar, outros rostos, outras pessoas, outros medos, outras lágrimas. Esqueci-me de dizer que, se nenhuma dessas criaturas parece alegre, nenhuma também se mostrou ainda triste. É deveras sombrio. Existe em tudo grande ordem. Jamais vi alguém subir correndo uma escada, saltar dois ou mais degraus. Fazem-no um por um, meticulosos. Sou obrigada a seguir o que se estabeleceu ou desperto cólera. Começo a perder a noção do tempo. Acompanhando o crescimento do espelho acompanhei meu próprio crescimento. Vendo-o se transformar, tive consciência de minha infância perdida. Cada vez mais o espelho se tornava adulto, o que me obrigava a admitir-me também assim. Já não sei, mas talvez eu esteja quase velha. Tenho chorado muito. As caras de cimento armado acusam meu rosto molhado de deterioração. Mas é que tenho chorado. Diariamente tomo entre as mãos a caixa onde estão os restos mortais do meu amigo. E sofro. Sozinha, sem outro rosto, outra esperança, é-me impossível voltar a acreditar.
Não costumo sair de casa. Os dias são distantes, depressa, e quase nunca há sol. Habito um apartamento de andar térreo, um pouco escuro, ainda durante o dia, luxuoso e antigo, onde moram três outras criaturas. Ignoro porque moramos juntas. Conheço-as há pouco tempo. São mais ou menos parecidas com as que tenho visto, apesar de sabê-las mais perigosas - decerto pela proximidade. (Na verdade, gostaria de me mudar. Conheço, porém, a inutilidade das mudanças.) Falam demais, andam constantemente armadas, usam com ferocidade os dentes. Estão sempre gordas de razão. Esqueci-me de dizer que são mulheres, estas tremendas criaturas. Apesar deste detalhes, uma delas deixou crescer vasto bigode, que a tornou um pouco mais simpática, ocultando-lhe as presas, fortes, ameaçadoras. Ao levantar-me de manhã, para ir à cozinha fazer meu café, encontro-a, articulando a possante mandíbula, no trabalho pertinaz da primeira refeição. Cumprimento-a delicadamente, esforçando-me em parecer afável. Tenho por resposta o rosnar ameaçador de como se protege a caça. Nem sempre consigo tomar até o fim o meu café. A criatura rosna impaciente, às vezes uiva, dançando pela cozinha, dando-me a impressão de grande exagero na sua manifestação, creio, de alegria.
Volto ao quarto e me deito sob os cobertores, enquanto outra se veste rápida, precisa, para chegar na hora exata à primeira aula do Curso de Geologia. (Ocupamos as duas o mesmo quarto.) Antes de sair, faz ginástica. Conseguiu desenvolver de tal modo os músculos das pernas que, por várias vezes, julguei entrar um edifício inteiro pelo quarto, em sua construção exótica: pilares gigantescos sustentando pequeno tronco, enquanto a cabeça rodava, bola, distante e pequena como a cabeça de um alfinete. Após a ginástica arruma, sempre rápida, precisa, a metade do aposento que lhe pertence, jogando, debaixo e mesmo sobre minha cama, grandes pedras, por ela colhidas diariamente nas praias. Pedras personalíssimas, quase vivas, que já me tomam a metade do leito. Encolho-me sob os cobertores, as pedras ocupando sempre mais espaço, atiradas pela intrépida criatura: mecânica-rápida-organizada. Gostaria de impedir que meu corpo se expusesse diariamente a estas pedradas. Não vejo solução, já que deitar-me sob os cobertores é a maior proteção por mim encontrada. Se abandonar o quarto, enfrentando olhares antropófagos nas ruas, corro o risco de, ao voltar, achar toda a cama tomada. E me sentiria impossível argumentar com as pedras, eu que sou destituída de qualquer senso de organização, mesmo iniciativa.
Não que me ache conformada. Tentei protestar uma vez mas a estudante continuou, so9lene, limpando os móveis. Depois, sem pressa, meteu-me uma grande pedra na boca, deixando tranqüila o quarto. Mais tarde, escutei-a relinchando na sala para as outras, que eu cacarejo demais e não sei marchar. Não a compreendi. Ainda assim fui possuída de grande raiva, tomei de uma arma esquecida por uma delas na cadeira, tentei atingi-la nas costas. Não consegui e terminei amarrada em trouxa dentro de meu próprio cobertor, onde passei dois dias. Ao libertar-me, grunhiu qualquer coisa, como sentir pena dos meus compromissos. Que ignoro quais sejam.
A terceira criatura é tirana - e muito boa pessoa. P:roibiu-me mover rápido a cabeça para os lados, temendo que o ar sinta-se demais agredido. Assim, ando pelo apartamento buscando ver sempre o que está à minha frente. Se me viro, faço-o com delicadeza. Esse cuidado me traz em constante tensão. É uma mulher pequena, rosto quadrado, cabelos duros de torre; vai sempre ao cabeleireiro. Costumo confundi-la com os objetos da casa.
Como já disse, evito sair à rua. Os edifícios me ameaçam, as mãos frias do vento me sufocam. Além dos olhares assassinos e da velocidade; pessoas enormes deslizam ruidosas pela cidade, conduzindo dentro delas outras pessoas. Posso vê-las quando arrisco meu olhar assombrado pelas janelas dos seus ventres.
Não prefiro coisa alguma. No entanto, saio às vezes, principalmente à noite. Vem buscar-me um ser que desconheço - embora venha buscar-me. Mostra-me os dentes, parece quase sempre irritado, joga-me porta a fora como se eu fosse um saco de abóboras. Costuma também relinchar, mostrando toda ferocidade nos dentes brancos. Nas ruas, busca proteger-me. Apesar de já me haver deixado sozinha, entregue às feras, habitantes de um certo subúrbio. Este ser talvez me quisesse dizer algo. Vejo-o luzente, vestido de alumínio, brilhando de noite à minha frente. Não seria sua maneira de rir? Indago-me se essa lata possui um coração.
Além dele, visita-me, não se para quê, outra criatura, um pedaço de tronco fino de árvore. Sentado à minha frente, discorre longamente sobre pulgas, galinhas e percevejos. Depois do quê, sai sem se despedir, encolhido em sua própria casca, morena, rugosa.
Ruas fervilham. Duelos se dão e todo instante. Mulheres se odeiam, beijando faces umas das outras. Muitas enxertam carne de vaca nas nádegas. Nem por isso perdem o jeito mau e duro de andar. Mostram as presas, se as olhamos dão constantes coices. Homens comem ávidos, o hálito podre provocando náusea. Mas é então que as fêmeas se agitam de todo, coiceam e relincham, movendo caudas e crinas. O asfalto queima.
Encolho-me no apartamento, sofrendo a presença das três horrendas criaturas. Gostaria de viver sozinha, ou pelo menos possuir um quarto, onde não me atormentassem tanto. Móveis animados passeiam o dia todo pelo aposento. Ouço ruídos esquisitos.
Tudo se tornou demais difícil depois do crime da futura geóloga, assassinando o espelho com uma pedrada. Considero esse crime a maior desgraça em minha vida, inútil, calada, vazia. Foi o espelho a única criatura humana que conheci. Desde a infância habituara-me a ele e não havia como temê-lo. Vê-lo diariamente, minha grande aventura. Contemplava-lhe a figura trêmula, hesitante, de olhos escuros, amáveis. O espelho possuía de medo o rosto branco. Tinha de medo o rosto. Aquele belo rosto quase sempre triste levou-me a admitir, em algum lugar, outros rostos, outras pessoas, outros medos, outras lágrimas. Esqueci-me de dizer que, se nenhuma dessas criaturas parece alegre, nenhuma também se mostrou ainda triste. É deveras sombrio. Existe em tudo grande ordem. Jamais vi alguém subir correndo uma escada, saltar dois ou mais degraus. Fazem-no um por um, meticulosos. Sou obrigada a seguir o que se estabeleceu ou desperto cólera. Começo a perder a noção do tempo. Acompanhando o crescimento do espelho acompanhei meu próprio crescimento. Vendo-o se transformar, tive consciência de minha infância perdida. Cada vez mais o espelho se tornava adulto, o que me obrigava a admitir-me também assim. Já não sei, mas talvez eu esteja quase velha. Tenho chorado muito. As caras de cimento armado acusam meu rosto molhado de deterioração. Mas é que tenho chorado. Diariamente tomo entre as mãos a caixa onde estão os restos mortais do meu amigo. E sofro. Sozinha, sem outro rosto, outra esperança, é-me impossível voltar a acreditar.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Cogito - Torquato Neto
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
domingo, 25 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Child Psychology- Black Box Recorder
I stopped talking when I was six years old
I didn't want anything more to do with the outside world
I was happy being quiet
But, of course, they wouldn't leave me alone
My parents tried every trick in the book
From speech therapists to child psychologists
They even tried bribery
I could have anything
As long as I said it out loud
Life is unfair, kill yourself or get over it
Life is unfair, kill yourself or get over it
Of course this episode didn't last forever
I'd made my point and it was time to move on
To peel away the next layer of deceit
And see what new surprises lay in store
My school report said I showed no interest
"A disruptive influence"
I felt sorry for them in a way
And when they finally expelled me
It didn't mean a thing
Life is unfair, kill yourself or get over it
Life is unfair, kill yourself or get over it
(At that time she stopped what she was doing, she stopped playing. She stared, she had the facial grimicing, and then the psychiatrist was saying, "Julie, Julie, can you hear me? Can you open your eyes? Can you stick out your tongue?" And all of a sudden, Julie struck out.)
The November day when I came home
The Christmas decorations were already up
Spray on snow, coloured flashing lights
And an artificial tree that played Silent Night
Over and over again
My parents welcomed me with loving arms
But within an hour were back at each others throats
Normal, happy childhood back on course
Batteries not included
Life is unfair, kill yourself or get over it
Life is unfair, kill yourself or get over it
Life is unfair, kill yourself or get over it
Life is unfair, kill yourself or get over it
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
é no sentir que nos parecemos II

"[...] Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso" (Clarice Lispector).
sábado, 11 de outubro de 2008
é no sentir que nos parecemos
Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.
(Trecho de Existe Sempre Alguma Coisa Ausente)
Caio Fernando de Abreu
(Trecho de Existe Sempre Alguma Coisa Ausente)
Caio Fernando de Abreu
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