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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Feminina


Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés,
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer "potins" - muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravangantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...

.................................................................
Ah, que te esquecesses sempre das horas
Polindo as unhas -
A impaciente das morbidezas louras
Enquanto ao espelho te compunhas...

...................................................................
A da pulseira duvidosa
A dos anéis de jade e enganos -
A dissoluta, a perigosa
A desvirgada aos sete anos...

O teu passado, sigilo morto,
Tu própria quasi o olvidaras -
Em névoa absorto
Tão espessamente o enredaras.

A vagas horas, no entretanto,
Certo sorriso te assomaria
Que em vez de encanto,
Medo faria.

E em teu pescoço
- Mel e alabastro -
Sombrio punhal deixara rasto
Num traço grosso.

A sonhadora arrependida
De que passados malefícios -
A mentirosa, a embebida
Em mil feitiços...

Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 15 de março de 2010

Espelho



Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

(Sylvia Plath)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Júlio Cortázar - trecho


Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir.
Talvez
seja isto uma árvore,
ou quem sabe,
o amor.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Poeminho do Contra


Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!



(Prosa e Verso, 1978)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Adélia Prado


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,

sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.

Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies,

a graça de um estado.

Semente.

Muito mais que raízes.

Adélia Prado

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Stela do Patrocínio



Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu era ar, espaço vazio, tempo
E gazes puro, assim, ó, espaço vazio, ó
Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Fazer céu da boca, fazer falatório
Fazer músculo, fazer dente

Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Fazer cabeça, pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio
Não tinha onde tirar nada disso
Eu era espaço vazio puro

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Otto Lara Resende - Trecho

"Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.

É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença".

(Vista cansada)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Caio Fernando - Trecho

De repente estou só. Dentro do parque, dentro do bairro, dentro da cidade, dentro do estado, dentro do país, dentro do continente, dentro do hemisfério, do planeta, do sistema solar, da galáxia - dentro do universo, eu estou só. De repente. Com a mesma intensidade estou em mim. Dentro de mim e ao mesmo tempo de outras coisas, numa sequência infinita que poderia me fazer sentir grão de areia. Mas estar dentro de mim é muito vasto [...].

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Estrela Suicida - Marina Tsvetaeva

Começo aqui uma série de Estrelas suicidas, muito contrária as pessoas que se apavoram ou/e se esquivam do assunto, o tema suicídio me atrai profundamente, tomando minha atenção para saber detalhes do que levou a pessoa a chegar nele. No Orkut há a comunidade Estrela Suicidas, onde postamos o suicida e alguns trechos sobre ou poesias. No Monster começo com a Marina Tsvetaeva, que vim conhecer suas poesias recentemente.


Marina Tsvetaeva nasceu em Moscou em 1892 e, após uma vida condicionada por
trágicas circunstâncias, suicidou-se em Kazan, em 1941. Filha de um filólogo
ilustre, de origem plebéia, professor universitário e fundador do Museu Puchkin,
e de uma musicista, de ascendência alemã, aristocrata, teve sua infância
marcada, como ela mesma diz, pelo exemplo de dedicação ao trabalho e pelo culto
à natureza (pai), ao mesmo tempo que pelo amor à música e à poesia (mãe). Aos
dezesseis anos tem seu primeiro livro de poemas acolhido pela crítica (Volóchin,
Briussov) como uma revelação.

A partir deste momento abandona seus
estudos musicais e dedica-se
em definitivo à poesia. Conhece a fundo a
lírica européia de seu tempo (especialmente a alemã e a francesa), mas são seus
conterrâneos (Blok, Akhmatova, Biéli, Mandelstamm, Maiakóvski), a
Rússia e
seus temas que suscitam a pujança de sua expressão poética.

Força e
refinamento junto de uma intrigante angulosidade e diversidade de estilo e de
argumento, aliados a uma expressão rítmica das mais felizes situam-na, na
moderna poesia russa, entre seus últimos grandes representantes: Pasternak,
Mandelstamm e Akhmatova.

Aurora Bernardine publicada na Revista ATRAVÉS
1 de janeiro de 1983 - Editora Martins Fontes.




Aqui uma poesia com duas traduções

À VIDA

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.

(Trad. Haroldo de Campos)


À VIDA

Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel
Árabe

(Trad. Augusto de Campos)


fonte

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

poetisa. poeta. poematéria




"É crua a vida. Alça de tripa e metal. [...] "

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A Descoberta do Mundo - trecho


Desculpe eu estar errando tanto na máquina. Primeiro é porque minha mão direita foi queimada. Segundo, não sei por quê.
Agora um pedido: não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

Escrever é uma maldição.

Clarice Lispector,A Descoberta do Mundo

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

UM PEQUENO JOGO por Mr. Mojo Risin




8 de dezembro é a data de nascimento de James Douglas Morrison, mais conhecido como Jim Morrison.








Antes eu tinha um pequeno jogo
Gostava de rastejar no meu cérebro
Penso que sabes qual o jogo que me refiro
Refiro-me a um jogo chamado Enlouquecer
Agora devias tentar este pequeno jogo
Apenas fecha os olhos e esquece o teu nome
esquece o mundo, esquece as pessoas
E nós ergueremos um campanário diferente.
Este pequeno jogo é divertido de fazer.
Apenas fecha os olhos, impossível perder
E eu estou aqui, eu vou também
Liberta controle, estamos a atravessar

tradução pega neste blog

terça-feira, 24 de novembro de 2009

trecho - Caio Fernando Abreu


Hoje pensei sério: se me perguntassem o que mais desejo na vida, não saberia responder. Quero tudo. Mas esse "tudo" é tão grande, tão vago, que me sinto estonteado. É preciso ir limitando meu sonho, apagando as linhas supérfluas, corrigindo as arestas, até restar somente o centro, o âmago, a essência. Mas qual será esse centro, meu Deus, que não encontro?"

(Caio Fernando Abreu, Limite Branco)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O que há - Álvaro de Campos


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,

Cansaço...

(Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

João Guimarães Rosa



(27 de junho de 1908 – 19 de novembro de 1967), escritor mineiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e sua obra mais marcante foi "Grande Sertão: Veredas" (1956).




Grande Sertão Veredas



imagem @ we heart it


"Mas quem é que sabe como? Viver... o senhor já sabe: viver é etcétera..."
- Grande sertão: veredas - Página 90, de João Guimarães Rosa - Publicado por J. Olympio, 1958- 571 páginas

"Eu não sei quase nada, mas desconfio de muita coisa".
- Grande sertão: veredas - Página 16, de João Guimarães Rosa - Publicado por J. Olympio, 1958- 571 páginas

"A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.
- Grande sertão: veredas - Página 57, de João Guimarães Rosa - Publicado por J. Olympio, 1958- 571 páginas

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."

"As pessoas nao morrem, ficam encantadas."

"Passarinho que se debruça - o vôo já está pronto!"

"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

"Pão ou pães é questão de opiniães."

"Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça dos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é."

"Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total."

"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."

"Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe - mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?"

""Vida" é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia falsa. Cada dia é um dia."

"O senhor não esteve lá. O senhor não escutou, em cada anoitecer, a lugúmem do canto da mãe-da-lua. O senhor não pode estabelecer em sua idéia a minha tristeza quinhoã. Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?"

"Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas."

"Viver é negócio muito perigoso."

"Raiva tampa o espaço do mêdo, assim como do mêdo raiva vem."

"Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras."

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Interrogação De Nada



Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa

sábado, 7 de novembro de 2009

O Abutre - Franz Kafka

Kafka (D), ñ sei quem está do lado dele...

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado
sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto,
esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um
senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu
podia suportar o abutre. — É que estou sem defesa – respondi. — Ele veio e
atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um
bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como
vê, estão quase despedaçados. — Mas deixar-se torturar dessa maneira! –
disse o senhor. — Basta um tiro e pronto! — Acha que sim? – disse eu. —
Quer o senhor disparar o tiro? — Certamente – disse o senhor. — É só ir a
casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora? — Não sei lhe dizer
– respondi. Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei: — De qualquer
modo, vá, peço-lhe. — Bem – disse o senhor. — Vou o mais depressa
possível. O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos
alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de
asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo,
enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti,
com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos
infinitos do meu sangue.

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