Lá fora há sol.
Não é mais que um sol
porém os homens olham-no
e depois cantam.
Eu não sei do sol.
Eu sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até de manhã
quando a morte pousa nua
na minha sombra.
Eu choro debaixo do meu nome.
Eu agito lenços na noite e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Eu oculto cravos
para escarnecer dos meus sonhos enfermos.
Lá fora há sol.
Eu visto-me de cinzas.
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sábado, 25 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
NAVEGADOR - Marina Tsvetáeva
Embala-me no batel das estrelas!
Cansam-me a cabeça as vagas!
Há muito quero acostar – cansam-me
A cabeça os sentimentos:
Hinos – louros –heróis –hidras –
Cansam-me a cabeça os jogos!
Deita-me entre ervas, carumas –
Cansam-me a cabeça as guerras…
12 de Junho de 1923
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
Cansam-me a cabeça as vagas!
Há muito quero acostar – cansam-me
A cabeça os sentimentos:
Hinos – louros –heróis –hidras –
Cansam-me a cabeça os jogos!
Deita-me entre ervas, carumas –
Cansam-me a cabeça as guerras…
12 de Junho de 1923
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
A Canção Tocou na Hora Errada

A sofreguidão da música popular brasileira contrastando a fabulação dos
minutos que antecederam a morte da poetisa Ana Cristina César.
Andava exaustivamente pelo apartamento à procura de um canto em que pudesse clarear sua mente atormentada, mas não o encontrava.
Tripudiava em seu próprio corpo e clamava aos deuses algum perdão pela triste inquisição na qual vivia. Pobre Ana Cristina ligava o rádio e chorava sozinha.
Eram duas da madrugada, o apartamento dormia em sua inquietude, enquanto numa rebelião de vozes o Céu e a Terra invadiam seu ser. O acaso contemplava sua doce desesperança e nas mãos da fada da noite alumiava a vara de condão dos desesperados, que choravam a casta solidão, amarela, opaca, mas que não deixava de ser solidão. As paredes pareciam comprimir seus pulmões, fazendo-a se sentir como alguém que prendera um dedo na porta.
Dor, meu deus, quanta dor.
Ana C.,como era conhecida, tinha como companhia somente ele, o rádio, um tanto velho, gasto. Já não havia brilho, tão pouco a vitalidade que tinha no auge dos anos 70. Apenas ele naquelas tantas noites cessou seu pranto, amou-a de modo perfeito, ele compreendia seus anseios e nas incontáveis noites de loucura ofertava-lhe uma canção de Maysa e tudo ficava bem. Ela reconhecia na voz de Maysa a mesma nostalgia que a tornara louca.
De repente o tempo correu como louco por entre as faixas onde só os transeuntes tinham passagem livre e o badalar anunciava do alto do 10º andar aquilo que a jovem tanto sonhava.
Seu amigo rádio naquele momento não lhe acalmava, não lhe entendia, não lhe amava como deveria amar.
Ana C. enxergou pelo negro olho da janela um convite tentador — abriu os braços e dissolveu-se santa no ar. "Viram-se os barcos afundando e o filete de sangue na gengiva".
A canção de Maysa tardou a tocar.
Ariana Segantim
minutos que antecederam a morte da poetisa Ana Cristina César.
Andava exaustivamente pelo apartamento à procura de um canto em que pudesse clarear sua mente atormentada, mas não o encontrava.
Tripudiava em seu próprio corpo e clamava aos deuses algum perdão pela triste inquisição na qual vivia. Pobre Ana Cristina ligava o rádio e chorava sozinha.
Eram duas da madrugada, o apartamento dormia em sua inquietude, enquanto numa rebelião de vozes o Céu e a Terra invadiam seu ser. O acaso contemplava sua doce desesperança e nas mãos da fada da noite alumiava a vara de condão dos desesperados, que choravam a casta solidão, amarela, opaca, mas que não deixava de ser solidão. As paredes pareciam comprimir seus pulmões, fazendo-a se sentir como alguém que prendera um dedo na porta.
Dor, meu deus, quanta dor.
Ana C.,como era conhecida, tinha como companhia somente ele, o rádio, um tanto velho, gasto. Já não havia brilho, tão pouco a vitalidade que tinha no auge dos anos 70. Apenas ele naquelas tantas noites cessou seu pranto, amou-a de modo perfeito, ele compreendia seus anseios e nas incontáveis noites de loucura ofertava-lhe uma canção de Maysa e tudo ficava bem. Ela reconhecia na voz de Maysa a mesma nostalgia que a tornara louca.
De repente o tempo correu como louco por entre as faixas onde só os transeuntes tinham passagem livre e o badalar anunciava do alto do 10º andar aquilo que a jovem tanto sonhava.
Seu amigo rádio naquele momento não lhe acalmava, não lhe entendia, não lhe amava como deveria amar.
Ana C. enxergou pelo negro olho da janela um convite tentador — abriu os braços e dissolveu-se santa no ar. "Viram-se os barcos afundando e o filete de sangue na gengiva".
A canção de Maysa tardou a tocar.
Ariana Segantim
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Os Manequins de Munique

A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero
Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.
Desprendendo suas luas, mês após mês,
sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,
O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu
Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus
sorrisos
Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,
Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata
Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.
Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar
Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.
Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,
Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos
Cintilando
Cintilando e digerindo
A mudez. A neve não tem voz.
Sylvia Plath
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Estrela Suicida - Marina Tsvetaeva
Começo aqui uma série de Estrelas suicidas, muito contrária as pessoas que se apavoram ou/e se esquivam do assunto, o tema suicídio me atrai profundamente, tomando minha atenção para saber detalhes do que levou a pessoa a chegar nele. No Orkut há a comunidade Estrela Suicidas, onde postamos o suicida e alguns trechos sobre ou poesias. No Monster começo com a Marina Tsvetaeva, que vim conhecer suas poesias recentemente.
Marina Tsvetaeva nasceu em Moscou em 1892 e, após uma vida condicionada por
trágicas circunstâncias, suicidou-se em Kazan, em 1941. Filha de um filólogo
ilustre, de origem plebéia, professor universitário e fundador do Museu Puchkin,
e de uma musicista, de ascendência alemã, aristocrata, teve sua infância
marcada, como ela mesma diz, pelo exemplo de dedicação ao trabalho e pelo culto
à natureza (pai), ao mesmo tempo que pelo amor à música e à poesia (mãe). Aos
dezesseis anos tem seu primeiro livro de poemas acolhido pela crítica (Volóchin,
Briussov) como uma revelação.
A partir deste momento abandona seus
estudos musicais e dedica-se
em definitivo à poesia. Conhece a fundo a
lírica européia de seu tempo (especialmente a alemã e a francesa), mas são seus
conterrâneos (Blok, Akhmatova, Biéli, Mandelstamm, Maiakóvski), a
Rússia e
seus temas que suscitam a pujança de sua expressão poética.
Força e
refinamento junto de uma intrigante angulosidade e diversidade de estilo e de
argumento, aliados a uma expressão rítmica das mais felizes situam-na, na
moderna poesia russa, entre seus últimos grandes representantes: Pasternak,
Mandelstamm e Akhmatova.
Aurora Bernardine publicada na Revista ATRAVÉS
1 de janeiro de 1983 - Editora Martins Fontes.

Aqui uma poesia com duas traduções
À VIDA
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.
(Trad. Haroldo de Campos)
À VIDA
Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel
Árabe
(Trad. Augusto de Campos)
fonte
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Florbela Espanca

Hoje, 8 de dezembro é a data de nascimento de Florbela Espanca e também aniversário de morte. (Essa é uma daquelas coisas da morte que me deixa intrigada e fascinada)
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!
“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!
“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Cogito - Torquato Neto
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
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