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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Júlio Cortázar - trecho


Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir.
Talvez
seja isto uma árvore,
ou quem sabe,
o amor.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

trecho

E só me veja.

No não merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias.
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos

Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).

Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.

E que jamais perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.

Cantares do Sem Nome e de Partidas, Hilda Hilst.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Albert Camus



O mito de sísifo

"Morrer por vontade própria supõe que se reconheceu, mesmo instintivamente, o caráter ridículo desse costume, a ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento." (p. 19)

A morte feliz

"Ao imaginar alguns recomeços, ao tomar consciência de sua vida passada, tinha definido o que queria e o que não queria ser. (...) decidido a aproveitar o impulso para se instalar (...)para harmonizar sua respiração com o ritmo profundo do tempo e da vida."

"Não há grandes dores em grandes arrependimentos, nem grandes recordações.Tudo se esquece, até mesmo os grandes amores. É o que há de triste e ao mesmo tempo de exaltante na vida. Há apenas uma certa maneira de ver as coisas e ela surge de vez em quando. É por isso que, apesar de tudo, é bom ter tido um grande amor, uma paixão infeliz na vida. Isso constitui pelo menos um álibi para o despero sem razão que se apoderam de nós."

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Stela do Patrocínio



Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu era ar, espaço vazio, tempo
E gazes puro, assim, ó, espaço vazio, ó
Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Fazer céu da boca, fazer falatório
Fazer músculo, fazer dente

Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Fazer cabeça, pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio
Não tinha onde tirar nada disso
Eu era espaço vazio puro

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Otto Lara Resende - Trecho

"Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.

É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença".

(Vista cansada)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Caio Fernando - Trecho

De repente estou só. Dentro do parque, dentro do bairro, dentro da cidade, dentro do estado, dentro do país, dentro do continente, dentro do hemisfério, do planeta, do sistema solar, da galáxia - dentro do universo, eu estou só. De repente. Com a mesma intensidade estou em mim. Dentro de mim e ao mesmo tempo de outras coisas, numa sequência infinita que poderia me fazer sentir grão de areia. Mas estar dentro de mim é muito vasto [...].

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Trecho : A Descoberta do Mundo- Clarice Lispector


O hábito tem-lhe amortecido as quedas. Mas sentindo menos dor, perdeu a vantagem da dor como aviso e sintoma. Hoje em dia vive incomparavelmente mais sereno, porém em grande perigo de vida: pode estar a um passo de estar morrendo, a um passo de já ter morrido, e sem o benefício de seu próprio aviso prévio.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

trecho - Caio Fernando Abreu


Hoje pensei sério: se me perguntassem o que mais desejo na vida, não saberia responder. Quero tudo. Mas esse "tudo" é tão grande, tão vago, que me sinto estonteado. É preciso ir limitando meu sonho, apagando as linhas supérfluas, corrigindo as arestas, até restar somente o centro, o âmago, a essência. Mas qual será esse centro, meu Deus, que não encontro?"

(Caio Fernando Abreu, Limite Branco)

sábado, 7 de novembro de 2009

O Abutre - Franz Kafka

Kafka (D), ñ sei quem está do lado dele...

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado
sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto,
esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um
senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu
podia suportar o abutre. — É que estou sem defesa – respondi. — Ele veio e
atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um
bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como
vê, estão quase despedaçados. — Mas deixar-se torturar dessa maneira! –
disse o senhor. — Basta um tiro e pronto! — Acha que sim? – disse eu. —
Quer o senhor disparar o tiro? — Certamente – disse o senhor. — É só ir a
casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora? — Não sei lhe dizer
– respondi. Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei: — De qualquer
modo, vá, peço-lhe. — Bem – disse o senhor. — Vou o mais depressa
possível. O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos
alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de
asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo,
enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti,
com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos
infinitos do meu sangue.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Alcoólicas - Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

se tem asas...



#1

#2

the yardbirds



These are the days when Birds come back–
A very few – a Bird or two –
To take a backward look.

Estes sãos os dias em que os pássaros [voltam –
Muito poucos – apenas um ou dois –
Para dar uma olhada para trás.

Emily Dickinson

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

é no sentir que nos parecemos II


"[...] Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso" (Clarice Lispector).

sábado, 11 de outubro de 2008

é no sentir que nos parecemos

Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

(Trecho de Existe Sempre Alguma Coisa Ausente)
Caio Fernando de Abreu

sábado, 4 de outubro de 2008

de onde é traçada uma linha



— no mar
e me pediu, o Capitão, que redigisse uma carta para o último pombo
as últimas notícias. Ele disse naufrágio. eu perdi nas minhas coisas a minha distinção,
meu cargo. escrevi para alguém o que pensava do Imediato e do Foguista. um era preguiçoso
o outro incompetente e meio cego. e menti mais ainda, de quem até eu convivia mais perto.
e a mentira pior, — Nosso Capitão se suicidou. enrolaram na pomba, nem leram. Fazendo ranger
cada compartimento que invadia, e nossos ossos, a água não parava. ratos.
Conte o que está acontecendo. Sem escolhas.

C.C.A.

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